quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

idiotas...

PERFIL DO IDIOTA
"O idiota é geralmente competente, moralmente irrepreensível e socialmente necessário. Faz o que tem a fazer sem dúvidas ou hesitações, respeita as hierarquias, toma sempre o partido do bem e acredita religiosamente nas grandes ficções sociais.
A incapacidade de relacionar as coisas, as ideias e as sensações transforma-a ele em força, e como lhe escapam as causas e os fins do que lhe mandaram fazer, fá-lo com prontidão e limpeza, sem introspecções inúteis. Do mesmo modo, como vê no destino o único regulador da vida, acha que se uns dão ordens e outros obedecem é porque todos cumprem misteriosas injunções da providência, as quais é não só inútil, mas criminoso sondar.
 O idiota é todo liberdades.
...
Embora para um idiota seja uma desvantagem não saber que o é, normalmente ninguém lho diz: segundo Brecht, “tornar-se-ia vingativo como todos os idiotas”. Aliás, o mesmo Brecht diz que ser idiota não é grave: “É assim que você poderá chegar aos 80 anos. Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem. E então na política!”
...
Para o idiota, os sentimentos e as emoções são “uma boa”, constituindo dados manipuláveis. Em si mesmos, não lhes acha qualquer sentido ou valor, mas de qualquer modo são coisas que lhe podem trazer vantagens ou desvantagens: é preciso, portanto, avaliar-lhes as implicações e consequências. Ao lidar com sentimentos e emoções, os próprios e os alheios, o problema, para o idiota, consiste em controlá-los, guiá-los, desfrutá-los, e isso implica trabalho, cálculos complicados e a aprendizagem de técnicas nem sempre fáceis.
...
No plano do consumo e na vida social, o idiota português aprecia as coisas cómodas, os pequenos e grandes privilégios, planeando com minúcia o modo de obtê-los. Sejam quais forem as suas petições de princípio políticas, no fundo é um céptico, despreza o “povinho”, vive fechado para os outros. Aos generosos e altruístas, considera-os parvos ou hipócritas. O idiota circula à volta do sucesso como a borboleta em redor da chama, agarrando-se como lapa ou mexilhão a quem o alcança. Espertalhão, agrada-lhe receber, mas dá o menos possível, e arranja sempre qualquer explicação ética para justificar este comportamento. Na realidade, a sua lógica, elementar como as suas poucas ideias e imagens, consiste apenas em receber sempre mais do que dá.
....
Os idiotas andam sempre juntos: consomem os mesmos produtos, frequentam os mesmos locais, lêem os mesmos livros e jornais, e têm uma habilidade notável para descobrir e evitar quem não é idiota. Graças a Deus! A política, porém, unifica o conjunto da sociedade sob o signo da idiotia: pessoas estimáveis, notáveis até nos diversos domínios do saber e da cultura, quando chegam à política tornam-se idiotas. Triunfam, quer-se dizer. Tornam-se, enfim, públicas.
[Publicado no Diário de Lisboa, de 12/6/87.] "
(Ernesto Sampaio)


Onde há uma vontade, há um caminho, e as portas estão abertas!...
Impor limites àquilo que incomoda, só depende de cada um!!!...




segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Há fogo sob a terra...que entra em nós às golfadas.

Nós somos as testemunhas...


"Verdade, mansidão e justiça vos hão de levar adiante, Vossas armas serão victoriosas, e vosso Reyno eterno."

A Filosofia não é uma ciência mas deve dar o valor aos que a merecem.
O mal não é simplesmente uma ausência do bem, como pensava S. Agostinho. O mal é a ausência da consciência do bem por estarmos demasiado concentrados em nós próprios, esquecidos da humanidade do outro, tapada pelos interesses.

"Sou qualquer coisa que fui. Não me encontro onde me sinto e se me procuro, não sei quem é que me procura. Um tédio a tudo amolece-me. Sinto-me expulso da minha alma."
 ( desassossego, Fernando Pessoa)
Não se pode confiar...
...  principalmente no Homo politicus.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Fora de moda ...(a honra )


Vêm aí dias piores...
... há um cheiro rosado de nevoeiros e de poeira humedecida.
E cresce no meu coração uma raiva contida, de ver tantos hipócritas. A minha alma ferida perdeu toda a inocência ...


                               COMO TUDO VAI MORRENDO... (EM MIM!)

"A honra é um conceito fora de moda - se antigamente certas pessoas não eram recebidas em certos sítios por muito sucesso ou fortuna que tivessem, hoje verifica-se o contrário.
Importam os resultados, o arrivismo, a arte de se safar, de embolsar, de ser um figurão, um espertalhão, um chico esperto...
A bajulação, os compadrios, os malabarismos, a corrupção, os cordelinhos, a ambição desmedida, o subir de forma horizontal ou torta, o virar de casacas e as batotas, o arrivismo e o alpinismo muitas vezes não compensam".
E Deus não dorme , dizem!

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A assaltar-me atitudes reflexivas!...

Não importa nada o que pensas ou dizes, o que realmente importa é o que fazes...

Tenho o vício da noite. Ontem dormi muito. Senti que perdi uma noite. Mas tudo bem, é preciso ir perdendo coisas. Deixem-me contar:
Na minha saída matinal, tomar café , no local do costume, ( rotinas diarísticas que me andam a cansar) apanhei um livro, ao "calhas" de José Micard Teixeira e folheei-o... ( com conselhos e dicas que acertam na alma, que nem uma luva).
Gostei.

Fiquei-me por esta reflexão "viver em medo".

"Sentes medo? Então? O que fazer? Fugir?"

"Eu não tenho isto, não tenho aquilo"

"Vê todo o caminho que percorres-te atá hoje? Agrada-te? Reconheces-te nele? Observa no que te tornaste? Gostas do que vês?......"

A verdadeira libertação é uma atitude na vida!

Pára de te queixar! Reergue-te! Renova-te! Edifica-te! Muda! Vive!...


"E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível."
(Albert Camus)




(A minha nova vida está a demorar uma eternidade a carregar... que desespero!)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Espelhos...



ABRO - TE A PORTA DO POEMA; E TU ESPREITAS PARA DENTRO DA ESTROFE, 

ONDE UM ESPELHO TE ESPERA. 
(Nuno Júdice)

Hoje apetece-me falar de espelhos...
Gosto de espelhos. Gosto de os usar para me ver, uns dias mais que outros.
Os espelhos têm, como muitas outras coisas, duas faces.

A maior parte das vezes o "meu" espelho diz-me:

Não percas tempo. Nem oportunidades. É para fazer? Faz-se!  É para viver? Vive-se!

 Nada como seguir a intuição. E a minha diz-me sempre que não há tempo a perder...


E também que nem tudo é cinzento...


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
... Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)


(Uma avalanche de sentires)


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A noite é da cor daquilo que queremos...(o mais importante no mundo é criar beleza )

O mais importante na vida 
É ser-se criador – criar beleza. 


Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.
(António Botto)



Horizonte Imediato

Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave


surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão

(António Ramos Rosa)
" A mim se uniu o mundo, as pálpebras do mundo revestem as minhas"



(Ele há pessoas com um pensamento curioso)


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Deve ser a isto que se chama Beleza...

"Não sou pobre, sou sóbrio, com pouca bagagem, vivo com o suficiente para que as coisas não me roubem a liberdade" 
(Mujica)

                  (Mujica)






Hay locuras para la esperanza hay locuras también del dolor y hay locuras de allá donde el cuerdo no alcanza locuras de otro color hay loc


(Aqui estão os abismos...a diferença entre os"bons" e os "outros" sei, lá como chamar-lhes!)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

(Re)lembrar Adriano Correia de Oliveira...Sempre!


Foi a 16 de Outubro de 1982, que Adriano Correia de Oliveira partiu deste mundo, com apenas quarenta anos de idade. Para a posteridade ficou uma obra discográfica recheada de pérolas. Uma delas foi gravada em 1970 e versa um problema contundente, então como agora: a emigração.

Adriano partiu para um outro palco.
Um palco do tamanho da sua ternura pelo seu país, pelo seu povo, pelos seus amigos...




Emigração nos anos 60...tal como agora, Deus meu!!!



"Este parte,
Aquele parte
E todos, todos se vão...
Galiza, ficas sem homens
Que possam cortar teu pão.

Tens em troca
Órfãos e órfãs,
Tens campos de solidão,
Tens mães que não têm filhos,
Filhos que não têm pais.


Coração
Que tens e sofre
Longas ausências mortais;
Viúvas de vivos mortos
Que ninguém consolará.

Este parte,
Aquele parte
E todos, todos se vão...
Galiza, ficas sem homens
Que possam cortar teu pão."





(Pergunto ao vento que passa notícias do meu país,o vento cala a desgraça,o vento nada me diz...
...ouço o vento a gritar por nós!)



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Quando o cansaço consegue ser maior que a vontade...(pigmenta outono , de certeza!)


As tempestades chegam e partem sem que demos por isso... são as nuances do 
tempo, ora suave ora agreste...

Já, o Outono! - Mas porque desejar um sol eterno, se partimos
à descoberta da claridade divina - longe daqueles que florescem
e morrem com as estações.
Interroguei-me esta tarde de Inverno em Outubro,
com tanta chuva e vento forte.
Será mesmo, Outono?!...



(Há que não deixar embaciar a alma)
in, "fiapos de ..."

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Hoje...pigmenta Mark Rothko...


Mark Rothko (25 de setembro de 1903 — 25 de fevereiro de 1970)

"O pintor Mark Rothko acreditava que o entendimento da arte é muito individual e somente pela observação meditativa é possível captar a realidade e a beleza que a definem. Para ele, a pintura não precisa de explicações, pois fala por si. Para ele, bastava o silêncio na contemplação da obra."





 (encolho-me toda, a querer ser concha, quando há muito barulho em volta... é uma defesa bem sei )

in,"fiapos de ...")

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Um notável ninho de aves raras difíceis de entender...

A poesia política...

...leio que Passos Coelho, esse  modelo de virtudes,  está sob suspeita, ó que admiração, por causa de uns trocos que recebia da Tecnoforma quando estava como deputado em regime de exclusividade (segundo a Sábado, qualquer coisa como uns 150.000 euritos). Mas diz ele que está de consciência tranquila, que não pisou o risco. A ver vamos como diz o ceguinho.


Se dentro de mim estivesse o arco-íris...até acreditaria!

Fico-me com o  som de Pation Andión:
Duerme sin fin compañera y no sepas lo que pasa.
Duerme tu hijo en el sueño. Duerme sin miedo y sin dueño.
Ayer me daban dinero parra comprar mi silencio,
Por eso mientras tu duermes escribo hoy estos versos.

Muchos piensan que arrendé a los que pagan mi canto.
No les daré desencanto, más les diré lo que di
A los que tienen la plata:
Mucho susto y mucha lata.

No me arrienda la ganancia de mi canto en los salones.
Ni tampoco las razones del que presume pureza.
A mí me infunden tristeza,
Los que juegan de santones.

Me han pinchado por todas partes y por todas partes
Me han criticado el grito. Otros me dan y yo quito,
La importancia a mi guitarra, que las mentiras desdeña
Y a mis verdades se agarra.

Bien señores: se acabó el tiempo del acomodo
Y les he dicho lo que pasa y he sentido. No se ofendan,
no hay motivo, más ninguno se haga el sordo
que todos antes me oyeron y hasta algunos aplaudieron
cuando he cantado al amor.

No se olviden que el dolor, no calla quienes lo hicieron.

No cantaré compañera sino a la carne y al hueso,
Y dejaré las razones a los que saben de eso.
No venderé mi guitarra, no la ganará el silencio, ni el interés,
Ni el desprecio, mi canto...mi canto no tiene precio.

Guarden su oferta señores, están perdiendo su tiempo.
No me importa que se ofendan,
Se equivocaron de tienda,
Porque aquí nada está en venta.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

"A Parábola dos Cegos" de Pieter Bruegel e Saramago à mistura ...(que nos empurra para a reflexão sobre o que nos nossos dias de semelhante existe).



A cegueira humana pelo desconhecido e pela persistência da tolice provocam sucessivas quedas num caminho alegórico excelsamente retratado por este Mestre



"Diz-se a um cego, estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ali ficou parado no meio de rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicômio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar."
 (José Saramago)

Que fazer com um povo como nós? Com os tristes enxofrados que nos governam ???...
in, "fiapos de lucidez"


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Com alfonsina y el mar... mercedes sosa/ Jorge de Sena ...(felicidade). Enquanto em Gaza, a persistente resistência mata!




jorge de sena / felicidade


A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.
in,"fiapos de ..."

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Trauliteira....que coisa! (Seria bom se este meu blogue tivesse outro nome, coisa decente, com dignidade intelectual) ...

Devia ter nomeado este blogue com recurso a uma obra literária, devia ter feito uma dessas vulgares façanhas verbais, um trocadilho que, mesmo ridículo e forçado, me fizesse parecer cabeça criativa e pensadora. Qualquer coisa como "crónica de um blogue anunciado", "blogue da razão pura", "em busca do blogue perdido", "singularidades de uma rapariga loura". Uma combinação de palavras cruciais, como "inquietação", "relatividade", "olhares"... 

 E sem mais rodeios...vou falar da:

Seleção...

A propósito de uma crónica lida no Observador . Reza a autora a seguinte grande verdade:

"Somos uma das grandes nações do futebol, os nossos jogadores estão entre os melhores do mundo… e no entanto não vamos ganhar o Mundial. É o que acontece sempre. Por um lado, ficamos cheios de esperanças (...) Por outro lado, sabemos que estamos destinados a perder".

Ora, nunca é demais recordar que esta pessoa que vos escreve não percebe nada de futebol. Já tentei perceber, mas não percebo. Gostava de me entusiasmar com o desporto rei, porque é sempre uma maçada ver toda a gente aos saltos e eu ficar ali neutra, estilo psicopata da vida isento de emoções humanas a fingir que está muito contente ou muito triste conforme o resultado, mas é o que acontece quase sempre.
Depois é um jogo muito não me toques, tudo é falta, ai-que-me-tocou-no-menisco-que-tragédia, com especial predominância de rapazes bons atletas mas simplórios de brinco na orelha, penteados à kizombeiro e hábitos a condizer.
Tal como a crónica do Observador aponta e muito bem, quer a Seleção ganhe ou perca o País continua exatamente na mesma. Cada português à beira de um faniquito, a gritar pelo Ronaldo, não acrescenta um cêntimo à sua conta bancária, não tem melhores condições de vida, não arranja um emprego decente nem deixa de se angustiar com o futuro dos filhos ainda que se ganhe o Mundial com um resultado estrondoso e nunca visto. O Ronaldo volta para a sua vidinha de grandes bólides e fatiotas de gosto duvidoso, os adeptos voltam a maçar-se com pagar as contas. No fim do jogo, o encanto quebra-se e as carruagens voltam a ser abóboras.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O que faz o meu País aos melhores!!! (ao som do homem que diz adeus, Bernardo Sasseti Trio ).





"Cada pessoa é um mundo feito de memória, a mais subtil de todas as matérias e, no entanto, a única que verdadeiramente existe.

O que é certo é que este meu país deu cabo do meu amigo. O génio do meu amigo foi esmagado, obliterado, esquecido por este país.

O meu país é um país que não reconhece o verdadeiro valor, não gratifica a excelência, e mal suspeita de alguma coisa original, logo, estranha, esmaga-a.

Camões morreu pobre e desolado. Provavelmente sem ter tido sequer a sorte de ter tido um único amigo, como eu tive.

O Pessoa, que viveu de quarto em quarto, foi morrer com o fígado trespassado a um hospital com nome francês que está no Bairro Alto e, ao que se diz, a última frase que se lhe ouviu foi em inglês que a disse I do not know what tomorrow will bring, para tirar as dúvidas a quem as tivesse.
O Ruy Belo, um magnífico poeta, foi um herói desprezado primeiro pela academia fascista e, depois, pela academia democrática.
Eu só não me deixei esmagar porque não tenho valor algum em particular, nunca tendo chegado a ser o que queria, que é o que acontece a grande parte da gente, senão a toda a gente, que habita o meu país.

O meu país só reconhece os génios depois de estarem bem mortos e enterrados, de forma a já não poderem ofuscar nenhum dos irrisórios entes que tendem a demorar a morrer e gerem a chamada cultura nacional.
Aliás a maior manifestação cultural do meu país é o futebol, um jogo que se joga principalmente com os pés, uma manifestação que não só esmaga todos os desportos à sua volta como todas as outras manifestações presumivelmente culturais.

O Fernando Pessoa só foi plenamente reconhecido quando começou a dar dinheiro, por assim dizer, e, passada uma eternidade de estar sepultado no cemitério dos Prazeres, as entidades culturais decidiram mudá-lo para o Mosteiro dos Jerónimos, do outro lado onde deviam estar os ossos de Camões, mas não há nada, a ele que explicitamente escreveu nada haver de mais estúpido do que a Igreja Católica.

Do último exíguo quarto onde foi morrendo devagar, fizeram, abusando do seu nome, uma casa de vários pisos onde decorrem as mais variadas manifestações culturais. Algo de intensamente agoniante, diria mesmo lúgubre, uma verdadeira falta de respeito pelo poeta, e pela essencial carência da poesia".

Pedro Paixão in 'Espécie de Amor' 




Não há dúvida: existem coisas tão simples e tão belas!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Mundos...( a minha estrada).


As pessoas bem sucedidas, fortes e audazes que tenho visto podem não ser uns querubins, uns santos - afinal, 
vivemos num mundo que obriga toda a gente, até os melhores, a alguma assertividade - mas fazem-se leves, flutuam quando podem, remam quando é preciso, gozam as coisas boas e não se descabelam pelas más; se há estragos agem e procuram reparar o dano em vez de entrar em pânico, de berrar que o mundo é injusto e que serão toda a vida uns desgraçados.
Metem-se nos seus assuntos, não têm tempo para coisas mesquinhas, responsabilizam-se pelo que é da sua responsabilidade e deixam alguma coisa ao sabor da Sorte, que gosta de favorecer os audazes e aqueles que se movem...
E às vezes, as boas obras voltam ao dono. Sob a forma de coincidências que até parecem justiça poética, e nem sempre de modo discreto.



(Tudo o que escrevo vem das coisas em que reparo ou outras de que me lembro. A rota do meu pensamento não passa com frequência na lua e raramente anda nas nuvens. Vivo com os pés na terra, conforme predestinaram os astros à data do meu nascimento, e nela tenho tudo o que preciso para exercitar a minha sensibilidade. )

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Em tempos de diversão, de irrisão e de corrosão...( um poema de Herberto Helder, bem à maneira!)...

Há uma luz que, por natureza, nos cega. Há outra que é pensada e produzida para nos cegar, um dispositivo de cegueira...

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Música e poesia....(entrega)



"ser artista é amanhecer como as árvores, que não duvidam da própria seiva e que enfrentam tranquilas as tempestades da Primavera, sem recear que o Verão não chegue."


(Helena Santos - Love/Life)

Entras em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio.
(...)
Albano Martins

(Este blogue, que parece querer dar-se ares de coisa velada, é honesto. Podia vir aqui ludibriar o mundo inteiro, se isso me apetecesse ou desse vantagem...
Precisando, sei mentir com requinte e coerência. Mas não preciso. E isso é um luxo dos raros, principalmente em tempo de crise.)
in, "fiapos de lucidez

terça-feira, 3 de junho de 2014

Fábulas...( de La Fontaine).

Cá vamos andando, todos diferentes, uns querendo esconder-se do mundo, outros achando que nunca é grande bastante a sombra que projetam. Outros em devaneios...ilusórios!!!

Ontem a historinha do "Felipe" foi uma fábula de La Fontaine. Acho que andamos todos meio 
esquecidos do moral desta. Por isso aqui partilho a parte final. Só há uma forma de fazer as coisas. Fazendo. Vai chegando de vozearia. Foi assim que lha expliquei. Depois de a ler. Não sei se percebeu estava cheio de sono.
E nós, compreendemos? Ou vamos continuar a fazer de conta que não se passa nada? Acordados para o que não interessa, cheios de sono para a vida. O Felipe amanhã percebe. E nós? "Ou então a vida vai torta"?

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Na dança das cadeiras, Paz às suas almas! (Que nunca emudeçamos. Haverá sempre quem escute!)...

O tempo de espera não é um tempo sem emoção nem acontecimentos... 
Acho muito bem que apareçam políticos "excêntricos" para abalar as mentes conservadoras dos partidos e daqueles que julgam que detêm o exclusivo das prerrogativas democráticas. Não julguem por um instante que Marinho Pinto preenche as minhas medidas, mas defendo o princípio de que, todo e qualquer cidadão, "desreferenciado e sem cartão de sócio", se possa fazer ao piso da política. A falsa alternativa de mudança será voltar a apostar nos mesmos cavalos de corrida, gastos e cheios de vícios...
Na dança das cadeiras, Paz às suas almas!

"En el principio
Si he perdido la vida, el tiempo, todo
Lo que tiré, como un anillo, al agua,
Si he perdido la voz en la maleza,
Me queda la palabra.

Si he sufrido la sed, el hambre, todo
Lo que era mío y resultó ser nada,
Si he segado las sombras en silencio,
Me queda la palabra.

Si abrí los labios para ver el rostro
Puro y terrible de mi patria,
Si abrí los labios hasta desgarrármelos,
Me queda la palabra."
    Que nunca emudeçamos. Haverá sempre quem escute!

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Senhoras e senhores, meninos e meninas: aprendam a falar de amor...

Algo se passa comigo, ando que não me aturo. Não sei porquê, tenho várias suspeitas ...
Palavras de amor. Eram dos poetas, dos apaixonados, dos adolescentes, das mães para os filhos, sussurravam-nas as solteironas aos gatos, as beatas diante do Crucificado; liam-se nos romances em que a doente se apaixonava pelo médico, ou a criada de dentro caía nos braços do fidalgo; ouviam-se nos fados, soletravam-nas as atrizes nos filmes a preto e branco. 
Hoje as palavras de amor continuam a ser dos poetas e dos namorados, das mães, das solteironas, das beatas, mas são-no também da publicidade...
Já havia inflação, até que uns dez anos atrás chegaram os blogues, os "faces-buques"! e com eles as palavras de amor tornaram-se enxurrada, com a qualidade das enxurradas.
Sinal dos tempos, da vulgarização, das modas, da tendência para nivelar pelo mais baixo, mais usual, compreensível mesmo para os fracos do espírito, abunda a chochice, a frase requentada...

... aquele "amo-te" tão desgastado pelo abuso que dá para parafrasear o "se fosses só três sílabas" de Alexandre O'Neill.



terça-feira, 27 de maio de 2014

Olá...(devaneios)...


Ouve-se muito "não fales do que não conheces!", "não julgues pelas primeiras impressões!". Em suma,
" abre a tua mente!"...
 Tenho para mim que não há no mundo maiores enganos do que este: o da presunção de se ser bom, fantasioso e construído, consciente, muito mais do que aspirante, do que se é e do que se pensa ser.

Desde que o mundo é mundo que quem não se adapta está condenado à extinção. A natureza evolui, a sociedade também (nem sempre para melhor) e que remédio há senão fazer algumas cedências, na velha lógica se não os podes vencer, junta-te a eles - só no mínimo indispensável, diria eu.
 Mudar para melhor, admitir erros passados, exige humildade e sabedoria, mas também carradas de bom senso.
Por vezes temos de variar o caminho ou tentar um método diferente para chegar ao destino.
Não estás feliz?
Olha, não sei, as coisas acontecem apenas e temos de as enfrentar. Como num tribunal, as acusações nos olhos de terceiros, a garganta seca, a culpa, a maldita culpa a castigar tudo e todos.
Cometo erros por falta de tranquilidade. O que é a tranquilidade? O nosso mundo está partido aos pedaços, tem brechas brutais que se agravam a cada hora de um relógio que não nos pertence. Estamos em colisão, em extinção, ameaçados...
 Não? Certo. Estou a desconversar...


Copy - paste( Boaventura Sousa Santos)...agradecer à corja, talvez!

"O pós-troika vem mostrar que esta condição vai durar mais tempo e que o objetivo que se pretendeu com a integração na União Europeia – tentar ver se Portugal saía do estatuto de país semiperiférico – não foi possível".

"a troika sai (mas) não há Europa da coesão social. Há uma Europa de concorrência entre Estados, mais desenvolvidos e menos desenvolvidos".

"a carta de intenções, o próprio euro e o tratado orçamental são as três coisas que impedem que Portugal dê a volta criativa, como fez o Equador, que pagou a sua dívida no mercado secundário ou a Argentina, que rompeu dom co FMI. Estar na Europa, nestas condições, é uma prisão".

"Portugal continuará a fornecer a mão-de-obra e nada mais", visto que, destaca, “tínhamos passado a ser um país de imigrantes, voltamos a ser um país de emigrantes. Tínhamos direitos sociais no domínio do trabalho, velhice, educação e saúde, que têm sido precarizados de modo a que Portugal se pareça, cada vez mais, com um país subdesenvolvido ou do terceiro mundo".

"a tentativa [de Portugal deixar de ser um país semiperiférico com a integração na União Europeia] foi tão mal gerida que ficámos pior. Não ganhámos nada em termos da nossa posição no sistema mundial, não ganhámos nada com a integração na UE e ficámos pior, porque perdemos os instrumentos que poderiam, de alguma maneira, provocar uma retoma significativa da nossa economia e da nossa sociedade".

O que não estão a ver é que a troika vai ficar, deixou tudo planeado" e a alternativa a esta situação, sublinha, "teria de ser protagonizada pelo PS, eventualmente em aliança com partidos à sua esquerda". Acontece que, defende, "a coragem do PS foi sempre contra a esquerda e continua a ser" e "como os ventos agora vêm da direita, não estou a ver a coragem. Pelo contrário".

A presença da troika em Portugal "trouxe uma defenestração, um insulto, um atraque total à nossa auto estima. Abriu a caixa de Pandora que é o racismo da Europa do Norte em relação à Europa do Sul", tratando os portugueses “como um bando de indivíduos preguiçosos que viveram acima das suas posses, à custa dos bancos alemães” quando, remata, "foi exatamente o contrário – os bancos alemães é que viveram à nossa custa durante estes anos".
(Boaventura de Sousa Santos)



domingo, 25 de maio de 2014

O Roubo do presente...(José Gil)

TEXTO de José Gil (filósofo)

O Roubo do presente

"Há pelo menos uma década e meia está a ser planeada e experimentada quer a nível do nosso país, quer na Europa e no mundo uma nova ditadura - não tem armas, não tem aparência de assalto, não tem bombas, mas tem terror e opressão e domesticação social e se deixarmos andar, é também um golpe de estado e terá um só partido e um só governo - ditadura psicológica.
Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu. O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho. O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stress, depressões, patologias, border-line, enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens)
O presente não é uma dimensão abstracta do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direcções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público. Actualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais.
O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efectiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil. Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espectral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português.
Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria­-nos do nosso poder de acção. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."